Autoridades procuram hackers que assumiram controle de refrigeradores do Carrefour e Intermarché na França

Investigadores franceses tentam identificar os hackers que assumiram o controle de unidades de refrigeração em centenas de supermercados do país. O ataque cibernético evidenciou a vulnerabilidade de sistemas conectados e, até o momento, nenhum grupo reivindicou a autoria da ação.
A apuração ocorre em paralelo a um incidente de cibersegurança enfrentado pela rede varejista holandesa Ahold Delhaize, que provocou a interrupção de seus serviços on-line, embora as autoridades da Holanda tenham descartado qualquer relação entre os dois episódios.
A ausência de manifestação por parte de grupos ativistas ou de pedidos de resgate financeiro por cibercriminosos intriga as autoridades francesas, segundo uma fonte familiarizada com as investigações. Tradicionalmente, grupos dessa natureza buscam monetizar rapidamente as invasões ou reivindicar a autoria com finalidades políticas.
O ataque cibernético, que alterou os padrões de temperatura de refrigeradores em redes como Carrefour, Monoprix, Intermarché e Coopérative U, parece ter sido de simples execução, de acordo com três especialistas em segurança digital ouvidos pela Reuters.
Em Paris, funcionários de supermercados descartaram caixas de carnes estragadas e produtos congelados em grandes contêineres de lixo nesta terça-feira (13). Ao menos 350 lojas, uma fatia pequena do parque total de supermercados na França, foram atingidas pela invasão.
Empresa aponta falha em softwares
A agência de segurança cibernética da França informou que a invasão afetou refrigeradores operados com softwares da empresa dinamarquesa Danfoss, bem como programas da Copeland e da Dixell.
Na segunda-feira (12), a Danfoss afirmou que muitas das unidades afetadas já haviam “chegado ao fim de sua vida útil e não recebem mais atualizações de software ou de segurança” ou estavam “operando com firmware desatualizado”. A companhia declarou ter “orientado os clientes a manter os sistemas suportados atualizados com as versões mais recentes e a migrar sistemas legados para soluções de geração atual”.
A Danfoss não quis fazer mais comentários hoje. Já um porta-voz da Copeland, proprietária da Dixell, evitou confirmar os detalhes técnicos, afirmando que a prioridade máxima da companhia é proteger a continuidade operacional de seus clientes.
No caso da Danfoss, vulnerabilidades graves em versões antigas de seu firmware já eram de conhecimento público há meses. Em 9 de agosto, a empresa de cibersegurança Claroty detalhou falhas, posteriormente corrigidas por meio de atualizações, no controlador Danfoss AK-SM 800A, as quais permitiam a invasores burlar etapas de autenticação e executar comandos em dispositivos comprometidos.
‘Higiene cibernética básica’
Embora o mecanismo exato utilizado para comprometer os refrigeradores não tenha sido revelado publicamente, analistas de segurança digital apontam que o ataque decorreu de falhas elementares de proteção, provocadas tanto pela falta de atualização dos softwares da Danfoss quanto pela exposição das interfaces dos aparelhos diretamente à internet.
“Trata-se de higiene cibernética básica”, afirmou Ken Munro, sócio da consultoria britânica Pen Test Partners. “Se você errar nisso, o resultado são comidas estragadas.”
Munro destacou que as vulnerabilidades amplamente conhecidas deixaram as portas abertas aos invasores, sugerindo que a ação pode ter sido obra de “jovens apenas fazendo bagunça”.
“Se fosse um ataque patrocinado por algum Estado, por que atingir apenas uma parcela das geladeiras francesas? Há milhares de outros países com refrigeradores expostos à internet”, avaliou. “A ausência de resgate ou de reivindicações indica uma falta de compreensão sobre as perdas financeiras potenciais que os proprietários desses estabelecimentos enfrentariam.”
Vulnerabilidade persiste
Um grande volume de equipamentos segue acessível pela internet. Por meio da plataforma de varredura digital Shodan, a Reuters localizou ao menos 4.500 interfaces da Danfoss visíveis nesta terça-feira.
Não foi possível checar de forma independente quantos desses dispositivos rodam versões vulneráveis do software, mas a empresa francesa de monitoramento digital Onyphe pontuou que apenas uma pequena minoria dos equipamentos parecia contar com as versões mais recentes instaladas. Versões obsoletas continuam “amplamente presentes entre as interfaces de acesso público”, advertiu a Onyphe.
Interrupção em rede holandesa
Em um incidente separado, a varejista holandesa Ahold Delhaize informou hoje que deu início a uma “retomada controlada de determinados sistemas”, após registrar problemas de segurança cibernética a partir da noite de domingo (11).
O órgão regulador de cibersegurança da Holanda, NCSC, declarou não ver indícios de ligação entre o ocorrido na rede e os ataques aos supermercados franceses.
A Ahold controla a rede Albert Heijn, na Holanda, e grandes marcas do varejo alimentar norte-americano, como Stop & Shop e Giant Food.
Os sites de comércio eletrônico das lojas em ambos os países seguiam fora do ar no fim da tarde de hoje, indisponibilizando serviços de compras e entregas on-line.
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