As postagens de Trump valem US$ 1,2 milhão por ano? Wall Street decide

A empresa de redes sociais de Donald Trump tem apostado no medo de ficar de fora ("fear of missing out" em inglês, cuja sigla é Fomo) de Wall Street ao promover uma nova e controversa assinatura para acesso mais rápido aos "feeds" da conta do presidente na Truth Social.
Essa é a mais recente estratégia da Trump Media & Technology Group Corp., que anteriormente já havia explorado tendências de Wall Street, como criptomoedas e mercados de previsão, e agora busca capitalizar sobre seu usuário mais seguido e maior acionista: o presidente dos EUA.
Mais de dez clientes — principalmente empresas de negociação de alta velocidade ("high-frequency trading") — aderiram ao novo serviço Truth API, informaram executivos a investidores e analistas nesta semana. A empresa também planeja vender os "feeds" para uma gama mais ampla de clientes, incluindo investidores de varejo, veículos de imprensa e desenvolvedores de modelos de linguagem de grande porte (LLMs).
Se bem-sucedido, o produto seria uma tábua de salvação muito necessária para a Trump Media, que vem registrando prejuízos crescentes desde que as criptomoedas que a empresa detém entraram em uma espiral de queda no ano passado. Na segunda-feira, a empresa reportou um prejuízo líquido de US$ 238 milhões referente ao trimestre encerrado em junho — uma queda acentuada em relação aos US$ 20 milhões de prejuízo registrados no mesmo período do ano anterior. Os resultados não refletem novas adesões ao Truth API, lançado em 1º de agosto.
"Dadas as condições atuais do mercado e as mudanças nas prioridades de negócios e das partes interessadas, fizemos a escolha disciplinada de mudar nossa estratégia", disse o CEO interino, Kevin McGurn, em uma teleconferência com analistas na segunda-feira. "Essa é a postura ágil que pretendemos adotar na alocação de capital daqui para frente."
Até agora, a Trump Media tem apelado para a natureza competitiva dos operadores de Wall Street; um vendedor chegou a enfatizar a clientes em potencial que outras empresas estavam avançando nas negociações, segundo uma pessoa a par do assunto. Trump — que frequentemente sinaliza mudanças de política e notícias com potencial de movimentar o mercado na rede social da empresa — não foi mencionado nominalmente na chamada de vendas, embora o representante tenha dito que um usuário importante da Truth Social é particularmente ativo na plataforma.
A chamada ecoa e-mails de vendas da empresa que diziam que "vários de seus pares estão avançando com este produto", conforme relatado anteriormente pela Bloomberg News. As assinaturas custam entre US$ 60 mil e US$ 100 mil por mês, informou a empresa. Isso significa um gasto de US$ 1,2 milhão por ano.
As APIs tornaram-se ferramentas essenciais em diversos setores, permitindo que computadores e aplicativos de software se comuniquem entre si. A Trump Media afirma que operadores algorítmicos já estão coletando dados da Truth Social, e o novo "feed" forneceria essencialmente as mesmas informações, porém mais rapidamente e em um formato legível por máquinas.
O novo empreendimento da Trump Media contrasta fortemente com a forma como informações capazes de movimentar o mercado são tratadas pelo Federal Reserve, pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho e por outros órgãos em Washington. A iniciativa já enfrenta um desafio jurídico. Duas organizações de mídia — a The Intercept Media e a organização sem fins lucrativos Freedom of the Press Foundation — solicitaram a um tribunal de Nova York, nesta quarta-feira, o bloqueio do plano, argumentando que seria inconstitucional o presidente lucrar com a venda de informações governamentais.
Democratas do Congresso também contestaram o produto. Os senadores Ruben Gallego e Mark Warner apresentaram um projeto de lei visando a Truth API, que proibiria empresas de redes sociais de vender acesso mais rápido a informações provenientes de contas de funcionários do governo. Outras plataformas, incluindo o X de Elon Musk, também oferecem APIs que fornecem feeds de postagens geradas por usuários.
As senadoras Elizabeth Warren e Adam Schiff pediram à Securities and Exchange Commission (SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA) que investigasse se a Truth API viola as leis de valores mobiliários, classificando-a como "um abuso chocante do cargo de presidente e da confiança do público americano para ganho pessoal".
O presidente é o maior detentor de ações da Trump Media, com uma participação avaliada em US$ 1,1 bilhão mantida por meio de um fundo fiduciário revogável supervisionado por seu filho, Donald Trump Jr.. A empresa rejeita qualquer alegação de irregularidade e afirma que a nova ação judicial reflete a atuação de "ativistas de esquerda" que tentam censurar Trump e prejudicar os acionistas da empresa. “A Truth API reduz a latência para organizações que buscam acesso imediato a publicações da Truth Social disponíveis ao público, e qualquer sugestão de que a Truth API forneça acesso a informações não públicas é factualmente incorreta”, afirmou um representante da Trump Media em um comunicado.
Embora algumas empresas de negociação já tenham aderido ao serviço, outras indicaram que não pagarão por ele, pois não é necessário para suas operações, segundo pessoas a par do assunto. A Hudson River Trading e a Citadel Securities, por exemplo, estão entre as que tendem a não contratar o serviço, disseram as fontes, que pediram para não ser identificadas ao discutir informações não públicas.
Representantes das empresas de negociação de ativos não quiseram comentar.
As regras atuais sobre "insider trading" (uso de informações privilegiadas) não abordam de forma clara a propensão de Trump de divulgar notícias capazes de movimentar o mercado por meio de uma empresa de mídia de sua propriedade — muito menos uma tentativa de vender acesso mais rápido a essas publicações —, afirmou Karen Woody, professora da Faculdade de Direito da Universidade Washington and Lee. "Ninguém jamais imaginaria que um presidente em exercício faria isso; por isso, não foram estabelecidos mecanismos de controle", disse ela.
Questionado sobre os fluxos de dados da API da Truth em uma entrevista à Fox Business no mês passado, o presidente da SEC, Paul Atkins, disse que não poderia comentar. "Estamos observando o que está acontecendo e vamos monitorar a situação", afirmou.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
AP/Mark Schiefelbein
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