JPMorgan, Goldman Sachs testam ativos tokenizados em Wall Street

Durante quatro horas em julho, alguns dos maiores nomes das finanças colocaram à prova, ao longo de um dia comum de negociações, o experimento de longa data de Wall Street com blockchain.
Depois de anos de testes com versões digitais de títulos, dinheiro e redes de negociação, o foco passou a ser verificar se essas tecnologias conseguem funcionar em conjunto. Desta vez, quase 40 empresas testaram como ativos tokenizados poderiam circular pelas instituições que mantêm os mercados modernos em funcionamento.
Por meio de redes blockchain, JPMorgan, Goldman Sachs, Invesco e Citadel Securities negociaram ações e Treasuries, ofereceram garantias, atenderam chamadas de margem e transferiram ativos. Supervisionando tudo estava a Depository Trust & Clearing Corp. (DTCC), que acompanhou o exercício a partir de “salas de situação” em Nova York e Nova Jersey, enquanto as empresas concluíam dezenas de transações envolvendo diferentes casos de uso.
O objetivo mais amplo era testar se versões tokenizadas de ativos conhecidos conseguem circular por novos sistemas de blockchain sem abrir mão dos mecanismos de liquidação, custódia e controle de risco dos mercados tradicionais.
“Tentamos reproduzir as atividades que ocorrem diariamente no mercado”, disse Nadine Chakar, chefe global de ativos digitais da DTCC. “Você não quer que a tokenização aconteça de forma isolada. Quer que ela faça parte do fluxo de trabalho diário.”
Essa é a aposta por trás de grande parte do avanço da tokenização em Wall Street: não se trata apenas de ampliar o horário de funcionamento à medida que os mercados caminham em direção a negociações 24 horas por dia, sete dias por semana, mas também de verificar se os ativos podem circular com mais liberdade entre instituições, reduzindo a liquidez imobilizada e algumas das etapas intermediárias necessárias para movimentar garantias.
O projeto-piloto de julho foi uma tentativa de testar essa hipótese em condições mais próximas das de um mercado real, reunindo bolsas, câmaras de compensação, bancos e gestoras de ativos, em vez de limitar as operações a negociações bilaterais. As transações incluíram constituição de garantias, chamadas de margem, operações compromissadas, entrega contra pagamento (delivery-versus-payment) e transferências entre blockchains, usando versões digitais de ações, fundos negociados em bolsa e Treasuries na rede privada da DTCC, construída com Besu e Canton Network.
A DTCC afirmou que pretende levar o serviço dos testes limitados para uma utilização contínua em outubro, adicionando outra rede blockchain, ampliando o suporte a eventos corporativos de títulos do Tesouro — como pagamentos de cupons e vencimentos — e abrindo o serviço a participantes elegíveis além do grupo envolvido em julho.
O papel da DTCC no teste foi fundamental porque a instituição mantém o registro oficial de trilhões de dólares em valores mobiliários. Se as negociações tokenizadas ainda precisarem ser reconciliadas posteriormente com esse registro tradicional mantido pela DTCC, parte da eficiência prometida desaparece.
A DTCC não informou os valores das transações nem detalhes específicos sobre os clientes. Segundo Chakar, “o objetivo daquele dia era simular uma fotografia representativa do mercado, incluindo bolsas, câmaras de compensação e participantes tanto do lado comprador quanto do lado vendedor”.
Ainda existem grandes obstáculos, afirmou Chakar, incluindo adoção, alinhamento regulatório e integração com os sistemas existentes.
A DTCC afirma que o atual movimento de tokenização de Wall Street é diferente das tentativas anteriores de aplicar blockchain aos mercados financeiros porque a demanda institucional aumentou. A instituição citou um grupo de trabalho do setor que quase dobrou de tamanho em poucos meses, chegando a mais de 100 integrantes. Se isso terá relevância comercial é outra questão, afirmou Vivian Fang, professora de finanças da Universidade de Indiana.
“Muitos projetos-piloto empresariais de blockchain da última década fracassaram não porque a tecnologia não funcionasse, mas porque não existiam as condições necessárias para sua adoção comercial”, disse ela. “O teste definitivo será verificar se os participantes do mercado realmente adotarão os títulos tokenizados e se a plataforma proporcionará valor econômico mensurável.”
Movimentação de garantias
As garantias ofereceram um dos testes mais claros para determinar se a tokenização possui valor econômico. Em uma das transações, a DTCC tokenizou uma ação sob sua custódia e a utilizou como margem na CME Group em questão de minutos. Garantias tokenizadas podem ser liquidadas quase instantaneamente, reduzindo potencialmente a liquidez imobilizada e permitindo que as empresas utilizem seus ativos de forma mais eficiente, afirmou Chakar.
O JPMorgan, participando como membro de compensação da DTCC, converteu separadamente títulos usados como garantia em tokens digitais e os utilizou para atender a uma chamada de margem. O banco também testou ações tokenizadas como garantia, incluindo o ETF Nasdaq 100 da Invesco, de ticker QQQ.
“A tokenização pode reduzir atritos, melhorar a mobilidade das garantias e permitir que os ativos sejam utilizados de maneira mais eficiente para atender às exigências de margem”, afirmou Danny Hand, responsável por ativos digitais na área de prime financial services do JPMorgan.
Há, porém, uma ressalva. O JPMorgan pode criar garantias tokenizadas, mas as câmaras de compensação ainda precisam aceitá-las, os custodiantes precisam ser capazes de administrá-las e os sistemas de risco precisam levá-las em consideração. Uma adoção mais ampla dependerá, em parte, de as contrapartes centrais reconhecerem garantias tokenizadas após a expansão do serviço pela DTCC.
Isso ajuda a explicar por que a adoção inicial pode se concentrar em alguns poucos casos de uso. O Citigroup projeta que os ativos tokenizados poderão chegar a US$ 5,5 trilhões até 2030, alcançando US$ 8,2 trilhões em um cenário otimista. Analistas do Bank of America esperam que a adoção inicial se concentre na mobilidade de garantias, gestão de caixa on-chain e liquidação de instrumentos financeiros padronizados, enquanto ações e crédito devem avançar de forma mais gradual.
A clareza jurídica continua sendo outro obstáculo, segundo Noelle Acheson, autora da newsletter “Crypto Is Macro Now”. No entanto, a DTCC está “em uma posição relativamente única para impulsionar o setor, estabelecendo padrões e trabalhando com parceiros globais”, observou ela. “Dito isso, a transformação provavelmente levará cerca de uma década.”
Mesmo que esses casos de uso ganhem força, outro problema permanece: as empresas estão construindo soluções sobre redes blockchain que não se comunicam automaticamente entre si. Transferir um ativo de uma rede para outra ainda exige que ambos os sistemas concordem sobre o que foi transferido e quem é seu proprietário.
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