Após terremotos, engenheiros pedem que Venezuela faça auditoria em conjuntos habitacionais públicos

Quando o falecido líder venezuelano Hugo Chávez construiu um conjunto habitacional costeiro que leva seu nome como parte de sua revolução socialista, os moradores encontraram um novo começo depois que enchentes devastadoras destruíram a região mais de uma década antes.
Mas, depois que dois terremotos consecutivos destruíram partes do complexo de 1.100 apartamentos na quarta-feira, engenheiros pedem que o governo venezuelano realize rapidamente uma auditoria em conjuntos habitacionais públicos semelhantes que ainda permanecem de pé.
"Perdi meu apartamento inteiro", disse Yelsa Rojas, que desde 2015 morava no segundo andar do edifício conhecido popularmente como "Los Cocos", por estar próximo à praia de mesmo nome.
"Achamos que todos do segundo andar morreram", afirmou. Ela acrescentou que só sobreviveu porque estava em uma consulta médica quando os terremotos ocorreram.
Embora engenheiros e especialistas em construção afirmem ser cedo para determinar exatamente os motivos pelos quais edifícios específicos desabaram, eles dizem que décadas de negligência, a falta de fiscalização das normas de construção e práticas precárias de licenciamento durante os governos de Chávez e de seu sucessor, Nicolás Maduro, provavelmente agravaram o número de vítimas.
Eles também apontaram a instabilidade do solo no Estado de La Guaira, o mais atingido pelos terremotos e onde fica o conjunto Los Cocos, tornando a área especialmente arriscada para construções.
Enquanto equipes de resgate correm para encontrar pessoas soterradas nos escombros, engenheiros civis temem que outros edifícios também tenham ficado vulneráveis após os terremotos e querem ajudar o governo a verificar se essas estruturas continuam seguras para os moradores. Até agora, o governo reuniu-se com a principal entidade profissional de engenharia do país, mas ainda não iniciou as avaliações, o que tem gerado frustração entre especialistas.
Sob críticas
"É criminoso que o governo não esteja aceitando mais rapidamente as ofertas de apoio de engenheiros e universidades", disse Enrique Larrañaga, arquiteto e urbanista da Universidade Simón Bolívar, que já assessorou o governo em questões de desenvolvimento nacional.
O Ministério da Comunicação da Venezuela não respondeu a um pedido de comentário. No domingo, a presidente interina Delcy Rodríguez anunciou a criação de uma comissão para avaliar as estruturas habitacionais danificadas. Ela não informou quando as inspeções terão início.
O governo já havia sido criticado por não mobilizar mais cedo equipamentos pesados e equipes de busca e resgate, essenciais para a operação. Isso obrigou os moradores a procurar parentes com as próprias mãos, pás e cordas durante os primeiros dias, considerados cruciais após o desastre.
No sábado, a televisão estatal mostrou máquinas pesadas removendo tijolos e concreto dos escombros. Moradores disseram que equipes estrangeiras de resgate ajudaram a retirar corpos e pediram o envio de mais reforços.
Larrañaga afirmou que muitos conjuntos habitacionais, construídos às pressas pelo governo por motivos políticos, revelaram-se perigosos ao longo dos anos. Segundo ele, o país também perdeu boa parte de seu conhecimento técnico em engenharia durante o colapso econômico iniciado em 2013.
"Eles precisam dar às pessoas que têm conhecimento acesso à informação e aos recursos", acrescentou.
Uma imagem aérea mostra edifícios destruídos por terremotos em La Guaira , Venezuela , em 26 de junho de 2026
Reuters
Propensão à destruição
Como o governo ainda não iniciou suas próprias inspeções, engenheiros voluntários têm oferecido seus serviços à população, disse Glennys Gonzalez, arquiteta e engenheira civil que coordena dezenas de profissionais.
Segundo Gonzalez, a avaliação inicial do grupo sugere que, em muitos casos, as normas de construção não foram cumpridas. No entanto, serão necessários estudos para determinar por que algumas estruturas resistiram ao impacto enquanto outras ruíram completamente.
La Guaira também foi palco de outro dos piores desastres naturais da Venezuela, quando deslizamentos de terra destruíram comunidades inteiras no litoral em 1999, matando entre 10 mil e 30 mil pessoas.
Como montanhas íngremes descem abruptamente até uma estreita faixa costeira, enchentes e deslizamentos tendem a atingir diretamente as áreas povoadas, explicou Richard Casanova, presidente do Colégio de Engenheiros da Venezuela, principal entidade profissional que assessora o governo.
Essa configuração geográfica possui solo pouco consolidado, acrescentou, tornando a região especialmente suscetível à destruição durante terremotos como os da semana passada. Mais de 50 mil pessoas morreram na Turquia e na Síria quando um fenômeno semelhante atingiu os dois países em 2023.
Quatro dias após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, autoridades venezuelanas confirmaram no domingo pelo menos 1.450 mortos e 3.150 feridos. Iniciativas da sociedade civil para registrar desaparecidos já reuniram quase 50 mil nomes.
Controle de qualidade
Nicolás Labrópoulos, engenheiro civil e professor da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, afirmou que a areia, o cascalho e os sedimentos sobre os quais La Guaira foi construída podem fazer as ondas sísmicas se propagarem mais lentamente, mas com maior intensidade, ampliando a força dos tremores.
Preso entre as montanhas e o mar, o solo também pode se tornar mais fluido durante um terremoto, tornando as construções ainda mais vulneráveis, afirmou Casanova.
Muitos empreendimentos privados na região também desabaram, provavelmente devido à combinação dessas mesmas fragilidades do solo, anos de corrosão e falta de controle de qualidade. Casanova observou ainda que edifícios mais antigos podem não ter sido adaptados para suportar impactos dessa magnitude após a atualização das normas de construção, feita depois do terremoto de 1967.
"É possível construir ali", disse ele. "Mas é preciso cumprir rigorosamente as normas e, considerando a forma como o governo conduziu a construção civil nas últimas duas décadas e meia, tenho minhas dúvidas em muitos casos."
Após a tragédia de La Guaira, em 1999, o governo atualizou a legislação e os códigos de construção, lembrou Casanova. O problema na Venezuela, porém, não são as normas, mas a falta de fiscalização de seu cumprimento.
O governo Chávez começou a construir conjuntos habitacionais como Los Cocos pouco antes das eleições de 2012, como parte de um programa para erguer milhões de moradias populares em todo o país. Maduro deu continuidade ao projeto, ampliando o acesso à habitação para venezuelanos de baixa renda.
Mas, à medida que Chávez e depois Maduro concentraram poder, as instituições enfraqueceram, assim como o controle de qualidade sobre novas construções e a manutenção das estruturas existentes, afirmam arquitetos e engenheiros.
Um prédio danificado por um terremoto permanece em pé em La Guaira, Venezuela, no domingo, 28 de junho de 2026
AP/Matias Delacroix
Segundo Gonzalez e Casanova, os empreendimentos foram construídos rapidamente por uma combinação de órgãos estatais e empreiteiras da China, da Turquia e de Belarus, sob supervisão militar e com pouca transparência pública.
A falta de fiscalização das normas mais rigorosas nas obras públicas também sinalizou aos construtores privados que poderiam descumprir regras sem maiores consequências, disse Casanova, em contraste com países como o Chile, onde essas exigências são aplicadas de forma muito mais rigorosa e o número de mortes em terremotos tem sido relativamente baixo.
Um terremoto de magnitude 8,8 no Chile, em 2010, matou cerca de 525 pessoas, resultado amplamente atribuído ao rigor e à fiscalização das normas de construção. Em contraste, um terremoto mais fraco, de magnitude 7,0, no Haiti, também em 2010, matou centenas de milhares de pessoas.
Construções precárias e esquemas de corrupção ligados à habitação pública na Venezuela têm sido denunciados por diversas organizações e veículos de comunicação nos últimos anos. Reportagens e estudos independentes identificaram edifícios construídos em áreas geologicamente instáveis, alguns com rachaduras, infiltrações e outras deficiências.
"A história da habitação pública de Chávez é uma história de corrupção e de construções de baixa qualidade, erguidas, em muitos casos, sem supervisão, inspeção ou cumprimento das normas técnicas", afirmou Casanova.
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